Lua e Hippie ou como a arte pode afectar o nosso estado de espírito em 2026


Não apetece sair da exposição «Estado de Espírito», de Mariana Caló e Francisco Queimadela, na Galeria Municipal do Porto, sobretudo por Lua e Hippie - cheios de espírito e boas «vibes».

São anfitriões animais, plenos de «anima» (alma), graça e elegância, espirituais e espirituosos, de «corpo animal», «corpo radial» como também o meu que agora os vê. Lua e Hippie convidam-nos a entrar na exposição «Estado de Espírito», de Mariana Caló e Francisco Queimadela, com curadoria de João Laia, na Galeria Municipal do Porto, até Fevereiro de 2026.
    Recebem-nos de orelhas levantadas, descontraídos e brincalhões entre eles, entre eles e os fotógrafos e agora ante os espectadores da galeria. Convidam-nos a descontrairmos do mundo e a imergir de corpo e alma nos elementos - Terra, Água, Ar e Fogo - de que coelhos vivem e artistas e espectadores (sobre)vivem.
    A exposição desperta vários sentidos do corpo. É ecológica, observadora e sedutora, prosaica e lírica, artista e artesã, estóica e epicurista, senciente e consciente.
    É mostra visual e sonora - um farol ilumina o espaço e um sino de aldeia como que pontua a visita - seguindo «o sentimento rítmico e matemático do mundo» de que fala Elie Faure no ensaio «Afinidades geográficas e étnicas da arte».
    É feito poético à laia de um «chiaroscuro» do século XXI (jogos de luz e sombra, de espelhos e reflexos em vários objectos que compõem o espaço em esconde-esconde com o espectador).
    O vídeo «Subir e sumir» é uma loa ao «carpe diem», ao viver a realidade, neve e chuva, dia e noite, em tempos que (per)turbam o estado de espírito, à maneira de Alberto Caeiro: «eu não quero o presente, quero a realidade;/Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede». Em pandemia e clausura, a natureza é soberana como a montanha, é livre mesmo que o Homem a queira aprisionar. A natureza só vive o aqui e agora e nós igualmente quando nos ligamos a ela. O cão lambe a mão da pessoa; a pessoa faz festinhas no pêlo do cão; a tartaruga e o insecto interagem com a mão humana em interconexão de linhas da mão/espíritos/almas («animae»); a pessoa faz puzzles de pedras sobre o chão de terra para ter o seu próprio chão; a abelha, a aranha e a formiga fazem a sua vida e o seu labor também; e a criança, poeta «per si», brinca e (en)canta entre a vegetação, montanha ao redor.
    Esta curta-metragem e toda a mostra são uma «boa tarde às coisas aqui em baixo», verso de Lobo Antunes/Larbaud. Um «bom dia» ao insecto, à pachorra feliz do cão, à vida zen de Lua e Hippie, à calma sábia e cósmica da tartaruga, sem stress algum, até podemos gostar de uma cafeteira a explodir leite. «É preciso ter calma/não dar o corpo pela alma», recita Abrunhosa na canção sobre estados de espírito sob uma pandemia.
    Nesse vídeo, varanda sobre a montanha como em «Para Sempre» de Vergílio Ferreira: «Abro (...) a varanda, demoro-me (...), tomar posse do meu destino. (…) Tomar posse da minha condenação.» A montanha, a vida, o planeta, para todos os animais, seres, poetas, é destino e condenação.
    A sua contemplação através da arte apaziguar-nos-á o espírito para o transformar em quietude de Lua e Hippie? Deus queira!
        Caló e Queimadela desafiam-nos e inspiram-nos a vivermos a arte e a realidade que ela aproveita para a imaginação, a criação, o bom humor e a esperança, sem cortarmos também com um lúcido espírito crítico, até para atacarmos os senhores do mundo colonizadores e destruidores de terras e seres como (d)escreve a contundente curta-metragem de Kiluanji Kia Henda - “Dor Fantasma - Uma Carta a Henry A. Kissinger” - na outra mostra da galeria, onde se ouve que «mesmo que não ganhemos, é importante manter o conflito aceso». A arte é defesa e ataque.
    No fim da exposição de Caló-Queimadela, podemos adorar o Sol em perspectiva(s) através de painéis de seda. Mas sabem quem eu adorei mesmo? Lua e Hippie. Sem eles, a sua boa energia, e sem a luz da fotografia - arte - que os vê e (re)cria, Sol, montanha, meia-noite, seriam pouca coisa, como seriam nada sem uma cafeteira a jorrar leite acesa e observada pela mulher (metáfora do processo de criação artística), como sem a criança, Sol e Terra sentir-se-iam imensamente sós na Via Láctea, e nós aqui em baixo, não aguentaríamos o estado do mundo deixado pelo Mrs. Kissingers da política cínica e ignara, e os nossos próprios estados de alma.
    Não apetece sair desta galeria vermelha e geográfica, geológica, poética, telúrica, deixar Lua e Hippie - cheios de boa vida e boas «vibes».
    Entramos com renovado estado de espírito em 2026, folheando o nosso «Livro da Sede» de pequenos diabretes, tecendo pequenos e subtis fios condutores da vida.
    O estado de espírito de Caeiro/Pessoa talvez seja também o da dupla que concebeu este conjunto de objectos artísticos: «Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo.../Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,/Porque eu sou do tamanho do que vejo/E não do tamanho da minha altura...»


Nelson Bandeira,
2 de Janeiro de 2026

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