Aves da noite (prosinha para os meus desconhecidos)


Tenho mais conhecidos do que amigos. 

Tenho só conhecidos, só, sem amigos? Essa questão não vale a pena viver. 

Palavras, expressões:

“Boa tarde”, “Como está?”, “Tudo bem!”, “Como está?”, “Costumas vir para aqui?”, “Há quanto tempo!”, “Tudo bem!”, “Cá estamos”, “Vamos andando!”, “Neste momento, estou a dar umas aulas”, “Gosto muito do que você faz em Cedofeita!”, “Podemos combinar um café um dia destes!”.

Gestos, caras:

Acenos de mão, inclinar da cabeça, sorrisos mais ou menos forçados, um ou outro passou-bem.

Mas, se não são amigos, nem irmãos cristãos, sequer, são-me totalmente desconhecidos, sou-lhes totalmente estranho, raro como dizem os hispanofalantes.

Enfim, tenho mais desconhecidos do que amigos.

Mas não estou só, não, afinal, entre dezenas de desconhecidos. Lembro-me da Marge Simpson, citada por Rita Ferro na epígrafe do romance “Os Filhos da Mãe” que li e amei como um grande amigo no Secundário: “A stranger is a friend you haven't met”.

Tenho imensos desconhecidos na vida. 

Hoje, dedico-lhes esta prosinha. 

Meus queridos desconhecidos, graças a todos vós que me ajudais a não morrer de solidão, que me ajudais a viver a minha imensa solidão.


Nelson Bandeira


Imagem: reprodução de Nighthawks (Aves da Noite), 1942, óleo sobre tela de Edward Hopper, 1882-1967


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