Retoma horaciana
Tudo na vida se aprende e se constrói, a solidão, a solidariedade. As relações evoluem dia-a-dia, regridem e regressam. E, para não enlouquecer ou desistir, só podemos viver o dia-a-dia. Escrevi há dias num caderno em jeito de diário este rascunho: o ideal do carpe diem, para mim, não é uma treta ou um mero ideal, é a mais realista realidade, passe o pleonasmo, a mais dura verdade que tenho que viver e aprender a viver, é que se penso muito no passado, ele é mau, se penso muito no futuro, também por causa do passado, começo logo a ver nuvens negras em tudo, como português e como eu mesmo. Horácio é sempre uma lição. Como todo o passado, como todos os poetas do passado, que afinal não é assim tão mau como o vejo quando não sigo hoje o meu mais nobre e autêntico ideal, hoje que estou na vida, também com Gastão Cruz, um Horácio contemporâneo, hoje que estou na vida e tenho a percepção de uma mudança na minha existência: "Não sabemos bem a partir de que momento começamos a ter, não tanto a percepção da morte, mas a noção de uma mudança na natureza da nossa existência. a perda da ilusão de energia que tinha sido a nossa, igual à do adolescente que entra na carruagem do metro e, cumprimentando outro com uma forte palmada da sua mão na dele, ignora a morte, mas ignora talvez também a vida, não sabe que está na vida."
Poema 'Estar na vida', de Gastão Cruz, incluído no livro, Existência, Assírio & Alvim, Lisboa, 2017, disponível no blogue Inventário das Letras.
Na imagem: Gastão Cruz autografando-me "As pedras negras", na livraria Flâneur, no Porto, no sábado, dia 18 de Novembro de 2017.
Na imagem: Gastão Cruz autografando-me "As pedras negras", na livraria Flâneur, no Porto, no sábado, dia 18 de Novembro de 2017.
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