Uma caligrafia dos 18 anos




Em domingo de arrumações, reencontro-me com as saudades do tempo em que copiava poemas à mão. Sorrio e relaxo, o que é raro há muito tempo, ao descansar o olhar e o corpo na caligrafia desse adolescente, mais ou menos caprichada, mais ou menos desleixada, como é próprio desse/de um jovem de 18 anos. Tenho imensos papéis destes que vou assim revendo e relendo, às vezes com surpresa, além de post its, fichas de leitura, versos de talões de compras, recortes de jornais e revistas, versos de fotocópias, folhas brancas ou de outras cores, cadernos e blocos cheios até aos versos das capas ou apenas com um poema na primeira folha. Alguns, muito poucos, desses poemas são meus: de alguns tenho vergonha, de outros ternura, de pouquíssimos um certo orgulho. Mas, no fundo, os que copiei de outros também os sinto meus, e são esses os que mais amo, dos quais me orgulho por os ter lido, como, de resto, me envaideço q. b. por ler e ler literatura. Acho que fui feliz, não apesar de tudo, mas com isto tudo. E retomo também essa felicidade agora, apesar de tudo, ou com isto tudo, com tais débeis estados da matéria que me solidificam na solidão, copiando assim, à minha maneira de hoje, as palavras de Luiza Neto Jorge no livro 'O seu a seu tempo', que devo reler e reler, quando mais não seja para acrescentar mais poemas à minha felicidade e ao meu orgulho.

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