O senhor Ferreira, o meu barbeiro



"Chega-se a um momento da vida em que temos quase mais mortes do que glóbulos. O meu avô morreu em 1960 e não se passa um dia em que não me lembre dele."

António Lobo Antunes em entrevista com Maria Augusta Silva

Morreu-me o meu barbeiro há mais de dois meses, e continuo sem saber lidar bem com a situação. É desta temo perder-me na vida.
Podem morrer-te todos, pai, mãe, avó, irmão, filho, amante, amigo. Mas que nunca te morra o teu barbeiro, único, pessoal e insubstituível. Mesmo que tenha centenas de clientes, levou-te tantos anos a encontrar e conquistar e repousar. Profissional, avô dos netos, dos filhos e dos clientes, simpatiquíssimo, numa terra de comerciantes frios e enjoadinhos (parece que todos lhes devem e ninguém lhes paga), o senhor Ferreira, o meu barbeiro, tinha o dom da nobreza discreta, e o calor vivencial que trouxe de África e do Índico. Ouvia-me sempre e totalmente mesmo que eu permanecesse o tempo todo calado sob a lâmina da barba e a tesoura do cabelo. Onde irei encontrar melhor amigo, melhor ouvinte, melhor confessor, melhor conselheiro, melhor aconchego? No Facebook? No Tinder? Onde irei encontrar outro homem manejando perfeita, analógica e humanamente essa lâmina que te desce pela face rumo à garganta, ao início da voz, à alma? Umas gotículas de sangue às vezes e nada mais de dores, ou de traumas, só prazer esquecido! 
Agora é que sei que a minha morte está próxima, próxima desta vida, todos os dias!

Na imagem: Barbershop, por Jodie Estes.

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