A alma é um corpo de mulher


O dito popular universal crê e sustenta que os olhos são o espelho da alma. Já para nós portugueses, que aqui escrevemos e falamos, alma é palavra feminina. Com Giulia Sissa, dizemos agora neste texto que a alma é um corpo de mulher, mesmo nos homens que brotam de um corpo de mulher, de uma alma das almas, de uma mulher-alma. E, com a mesma autora, escrevemos que “o corpo é parte integrante não apenas na imagem da alma em acção, mas, já antes, enquanto coisa presente; em suma, não apenas nos enunciados, mas também já na enunciação. São então as categorias da pragmática, ou seja, da linguística que se interessa pelos actos da fala, que vão ajudar-nos a esclarecer a pertinência minimal e liminal do corpo em presença.”[1]
As mulheres da pintora Isabel Amaral, na sua dor e no seu amor, no seu sabor pictórico de saber de experiência feito, na sua velhice áurea e serena ou juventude rebelde e insubmissa, olham-nos sempre de frente, com frontalidade, mesmo quando parecem sofrer, temer, desconfiar, seduzir ou desafiar o nosso olhar.
Na sua humilhação e glória, para usarmos um título de Helena Vasconcelos, as mulheres e as mulheres criadas entre o real e a imaginação por Isabel Amaral não deixam de se (auto-)retratarem, mas também de se refractarem em desejo, que é sempre aproximação e conflito, amor e desafio, resignação e insubmissão, não deixam de se retratarem e de se refractarem em afirmação e força.
Observe-se que as cores e os traços das mulheres retratadas e ao mesmo tempo refractárias a qualquer retrato definitivo são quase sempre fortes e com traços carregados, dos cabelos aos olhos e aos lábios, o que demonstra personalidade mesmo na maior fragilidade. Almas fortes, convictas, senhoras de si, todas elas “femmes de tête” como uma certa senhora descrita num conto de Maria Judite de Carvalho[2]
A título de exemplo, de poderoso exemplo, o cinza e o branco da velha mulher (que, todavia, de mulher velha nada tem, tal o seu vigoroso carácter visível na pintura para além de qualquer humana idade) são de uma brutalidade frontal ou frontal brutalidade, com os seus olhos-espelho da alma em grande destaque, olhando para a frente (mesmo que seja um horizonte pleno de passado), traduzindo toda uma grande experiência e toda uma imensa cultura no que a cultura tem de mais feminino, de feminino plural, desde a génese, do choro do nascimento como bebé-mulher à dor-grito-ou-silêncio de mulher-mãe ou mulher-filha ou mulher-amiga diante da morte de uma mãe, de um pai, de um filho, de uma amiga, de um companheiro, de um ser amado.
Nessa velha mulher, que, no entanto, não é, como dissemos, uma mulher velha (no sentido de caduca, obsoleta), partes das cores do seu cabelo como que fogem e se espraiam pela cara, mesclando-se com os bege e amarelo desta, o que traduz robustas marcas de vida, em solidão e companhia, construída e reconstruída com sabedoria ancestral.
Há muito de expressionismo, no que o expressionismo tem de traços pungentes, mais ou menos intencional e artisticamente deformados, nesta colecção de corpos femininos de Isabel Amaral, e igualmente no que o expressionismo possui de salientar os contrastes dos corpos que tentam espelhar os contrastes das almas e da realidade que as forma e é reciprocamente enformada por elas (mesmo sabendo nós, desde Marcial, ser impossível espelhar o real e os corpos e as almas reais[3]). Expressionistas obras igualmente pela pungência de exprimir a juventude e a velhice, em melancólicas raiva ou festa, vividas e sofridas. Há a melancolia, mas também a festa. O grito, de rebeldia e desespero da alma (com mais ou menos contenção), de juventude e idade avançada (nos vários sentidos deste adjectivo).
Veja-se ainda a (re)contrução em traços carregados da mulher negra que revela toda a sua vida balanceada entre dor e felicidade, balanço ao mesmo tempo erótico e genuíno, revestido de grande sensualidade e carácter, diante de todas as adversidades, versos e reversos, caras e coroas, das mulheres em geral e das mulheres africanas e das mulheres negras em particular.
Também uma mulher de perfil, com o seu olhar de soslaio, nos mostra a sua altivez conhecedora do mundo e do mundo dos outros e das outras que observa e donde é observada em desejo que é simultaneamente contemplação e desafio. Também ela, entre o corpo e a alma, está marcada por toda a dor e voluptuosidade desse plural, contrastante, mundo feminino.
Estas mulheres de contornos fortes, nesta pintura, herdeira directa ou indirecta da revolução expressionista que marca toda a modernidade e pós-modernidade artística, até aos dias de hoje, reflectem esse ser plural que é ser humano feminino, feminino plural definido por vários valores, elencados por Margarita Rivière, e aplicados por esta autora a grandes nomes como Arundhati Roy, Graça Machel, Simone Weil, Isabel Allende, Doris Lessing e Helen Fielding, e que se podem aplicar na perfeição às várias mulheres de Isabel Amaral que formam essa mulher plural como peças de um puzzle singular e diverso: a fé, a paixão, o profissionalismo, a rebeldia, a responsabilidade, a lucidez, a inteligência, a mestiçagem, a tenacidade, o testemunho, a independência, a experiência, a autonomia, o realismo, o pacto, a memória, a provocação, a convicção, a perplexidade, a vontade, o génio, a sinceridade, a prudência, o instinto, o humor, o pragmatismo, a imaginação, a acção, as raízes, a curiosidade, a catarse[4]. Todos estes valores poderão ser, nas ideias de Rivière, alavanca para um mundo mestiço a partir de um programa de mulheres pois “o mundo pode ser de outra maneira”, ou seja, pode ser plural, pode ser feminino, e Isabel Amaral afirma-o com toda a força e convicção da sua arte.
Nestas pequenas-grandes pinturas de “Entre o corpo e a alma”, estamos então defronte de um grande mosaico que forma esse feminino plural de várias cores (de cabelo, de lábios, de roupas, etc.) e traços, sempre fortes, de portentosa personalidade. Desde a figura de fortes lábios e camisola de gola alta vermelhos à contrastante mulher de esfíngicos olhos verdes e um volumoso cabelo preto até às ruivas com rostos jovens e rebeldes, passando pela mulher de perfil que nos recorda uma das Demoiselles d'Avignon picassianas na sua provocação e intensidade.
Todas são caras melancólicas, daquela melancolia portuguesa e universal, cheia de baile e fado (cara e coroa de 24 horas na vida de uma mulher), mas todas são rostos seguríssimos, com uma energia que lhes vem precisamente dessa melancolia.
Uma destas mulheres, reproduzida num dos postais da exposição de Isabel Amaral, faz-me lembrar Clarice Lispector (será ela?) e, ela e as outras, é uma mulher à descoberta do mundo, masculino e feminino, numa dança de atracção, troca e repulsa, num jogo de fragilidade e pujança.
Há também uma ou várias Cleópatras, que como todas as Cleópatras, desde a histórica às míticas e imaginadas nos nossos sonhos, dominarão este mosaico artístico sob o signo do feminino e dominarão o mundo que é das mulheres desde a Vénus nascida das águas, desde todas as grandes apaixonadas, como Dido, ou de todas as guerreiras Amazonas. 

[Nota: A exposição de retratos femininos Entre o Corpo e a Alma de Isabel Amaral é inaugurada, dentro das comemorações do Dia da Mulher, na Editorial Moura Pinto, Espaço Fernando Valle, em Coja, Arganil, no sábado, dia 9 de Março de 2019]





[1] Giulia Sissa, A alma é um corpo de mulher, tradução de Cristina Robalo Cordeiro, Editorial Notícias, Lisboa, 2001.
[2] . “Estava velha mas continuava inteligente, 'femme de tête' , em suma”. Maria Judite de Carvalho, 'Uma Senhora', in Seta Despedida, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1995.
[3] “Pintor, que figuraste os traços do filósofo, porque não soubeste, na cera, colocar também uma alma socrática?”. Marcial, citado em Concerto das Artes, coordenação de Kelly Basílio, Campo das Letras, Porto, 2007.
[4] Margarita Rivière, O mundo segundo as mulheres, tradução de Jorge Fallorca, colecção Simetrias, Ambar, Porto, 2000.

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