Até nem parece
Como dizia o grande Guilherme de Melo, a maioria das pessoas aceita os "gays" (e os outros queer em geral) que vão ao encontro dos seus preconceitos e estereótipos serôdios. Antes era aceite o gay exageradamente "amaricado", cabeleireiro, esteticista e piadolas, decorador rico da Boavista, da Foz e da linha Cascais-Estoril-Lapa. Hoje, também é "tolerado" (horrenda palavra) o gay bonitinho, que "até nem parece" e nunca envelhece, bom filho, que cuida do corpo no ginásio para "parecer bem straight", com camisola cor de garrafa e com letras garrafais CONVERSE, ligeiramente atleta, e óculos Kenzo ou o raio que o parta, tem uma ou duas amigas com quem tira muitas selfies amorosas, às vezes até, por fétiche ou medo de perder a casa dos papás como herança, volta a ser outra vez bom e agora trendy, de Braga a Lisboa, papá e chefe de família, vai para o engate à sexta à noite, mas não falta à missinha ao domingo de manhã, para, à boa maneira católica, isto é, universal, apostólica, hipócrita e romana, manter as sempiternas aparências até à putrefacção final. Em suma, sempre as mesmas pequeno-burguesas e cinzentas, as pessoas desta pasmaceira ao sol atlântico plantada, eles e elas, não aceitam nada verdadeiramente queer, bicha, queer as folk. Até nem parece, mas em pleno século XXI, não evoluímos nada, tenho até para mim que temos vindo a regredir (vejam-se os admiradores e epígonos de Trumps e Bolsonaros que por aí medram). Ou nunca saímos da cepa torta. Tudo como dantes, quartel general em Abrantes. Ou no Café Pereira, nesta insonsamente turistificada e padronizada cidade do Porto, que como grande porto, tudo recebe e tudo expulsa também.
Na imagem, reprodução de obra de Tom of Finland.

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