Tempos interessantes (perigosos ou deliciosos?)
A meu ver, há por estes tempos, a par de um racismo sempre vigente, mais ou menos académico, algo que pouco se sente e se fala, sobretudo no "palco mediático": uma pujante homofobia outra ou reaccionária, serôdia como a do tempo da outra senhora, exteriorizada e/ou internalizada, com um recrudescer de entradas no armário e vidas duplas, uma renovada normatividade do corpo "masculino" e das suas vestimentas, paralela a uma heteronormatividade trendy (contemplem-se os papás e filhinhos únicos bonitinhos passeando-se nesses paraísos diabólicos que são as cidades turísticas, festivaleiras e os sempre cá shoppings centers). Curiosamente, dos ginásios da moda ao Instagram, dos bares da moda aos restaurantes gourmet, cheira-se também um forte homo-erotismo, mais ou menos tenso, no ar. Com a falta de emprego e dinheiro (para os muitos de nós todos que não somos Félix), com a extrema-direita da Hungria ao Brasil e às caixas de comentário em força "politicamente incorrecta", o armário continua a ser o lugar mais seguro do mundo. E essas eternas e confortáveis vidas duplas hoje são um desafiante fétiche. Não se sabe o dia ou a noite de amanhã, não é? É que serão estes tempos o princípio do fim da festa turística, "gourmet" e glamorosa como os outros loucos anos 20 ou o fim da História (da luta política e pessoal) tout court à espera, respectivamente, de uma outra noite negra fascista ou, na melhor das hipóteses piores, passivamente cinzentona e capitalista?

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