Os hipócritas




 «Toscano, que visitas
O doloroso grémio dos hipócritas...»

Dante Alighieri, Divina Comédia, Canto XXIII do Inferno, tradução de Fernanda Botelho

Conheço-os pelo cheiro. Usam Hugo Boss mas metem nojo.
E pela pose distingo-os. De resto, que mais têm além de pose?
Nunca os vi rir com convicção. E chorar jamais. «Só os maricas choram. Os fracos.»
Fizeram manifestações em favor do "Ultramar" e estiveram a cantar Abril. «E hoje o que era preciso era um novo Salazar para pôr isto na ordem!»
Dão uma no cravo e outra na ferradura, precisamente.
Dizem-se “pra frentex” mas esqueceram-se de limpar tantas e tantas teias de aranha escondidas.
Foram comunistas e perigosos esquerdistas, maoístas, até começarem a carreira, com 25 anos, e a maior parte muito, muito antes.
Vão para o engate à sexta à noite mas não perdem a missinha ao domingo.
Não vá o diabo tecê-las e perdem o mais importantezinho para a sua salvação: a herança dos papás, herança católica, apostólica e, eventualmente, romana.
Conheço-os pelo cheiro. E pela pose. De resto, que mais têm além de pose? 

Imagem: reprodução de gravura de Gustave Doré para a obra de Dante.

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