A solidão dos pombos





Sinto compaixão pelos pombos. Ia usar a palavra pena mas substituía por compaixão. Dizer "tenho pena" aparenta sempre um arzinho de superioridade em relação ao outro. Como se fôssemos superiores seja ao que for! Anda por aí um microorganismo invisível e estamos todos cagadinhos de medo. Compaixão é mais de igual para igual: é sofrer com, é amar com. Sofro com estes pombos. E nem quero olhá-los ou fotografá-los mais para não sofrer em demasia. Não tenho nem um niquinho da sua elegância na miséria, da sua coragem, resistência e resiliência de agentes voadores. Mas andam perdidos por estes dias vazios e pandémicos. Não entendem o que se passa na cidade. Não entendem por que não há gente a andar na rua, gente nos Jardins do Palácio de Cristal ou na Praça da República, gente sentada nos bancos do jardim a comer, a namorar, a dormir ao sol, a ler o jornal ou a mexer e tirar selfies com o smartphone. Acho que estão mais magros e com aspecto carente e doentio. São mais ferozmente atacados pelas gaivotas quando lhes atiro da janela as poucas migalhas que me restam do pão do pequeno-almoço. De repente, perderam os seus melhores amigos no Porto, em Lisboa, em Madrid, no Rio de Janeiro, no mundo inteiro: os bondosos animais humanos acima dos 65 anos. Que posso eu fazer por eles se nem deste animal que só escreve diários e nem voa sequer sei cuidar bem?

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