Sagitário
Para o Ricardo Neves
A flecha do astro
no coração da cidade.
O imo do teu ano –
a corola – a célula –
o estudo – o amor –
o aniversário – o animal.
A pata do centauro
pode passear no centro do Porto
- Dom Pedro Quarto,
cavalo com a força de pessoa
e ao contrário.
Tu, sempre, centauro.
O teu dia de mito:
a manhã em que só
tu és arco e flecha de tempo
para desfechar amor e alegria.
Desde a inicial madrugada de Dezembro.
Data: dezoito de dezembro.
Quase solstício, mas muito melhor,
em que te tornaste homem
em dança livre de poeta,
seta de música tecendo versos.
E só mesmo a poesia te conhece,
bailarino com todo o corpo de Júpiter.
Mas és ainda e sobretudo
o bebé que se mexe em choro e riso
vindo de todos os berços,
com todos os brinquedos,
dentro de todas as histórias.
Vitória! Vitória!
Sagitário, o teu impulso
tem dois mil e vinte anos,
ou até muitos mais:
basta que ao disparares
outra vez, e outra,
a seta seja de novo
a criança que foste
e ela caia na cena do teu dia.
Dispara do teu tempo
um pedaço de lonjura:
ouve, vê, lê, dança,
e mesmo voando pouco,
traz à cidade dos centauros
o máximo do teu poder:
o teu rosto de vida, de energia,
o teu simples salto de beleza.
Nelson Bandeira,
Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2020

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