Uma cidadela entre Vénus e Marte com vista para o Sol


Bandos de anjos com corpos de ginastas

descem à metrópole entre Vénus e Marte.

E entre passos de pessoas, peixes e demais bichos,

em glauca dança, desenham uma acrópole.

Bebem chá de gengibre para melhor falarem

nesta grande praça ao deus-dará.

Não têm medo das ruas mais escuras, e nem sequer do amor.

São anjos; como aos poetas, aos anjos 

ninguém lhes faz mal, até o grande ladrão da noite.

O seu fado é verde-mar, na ilha fazem toda uma cidade

de pássaros, carros elétricos, muitos jardins, rios e corais.

E, nas frestas dos dias e das dores, querem uma saída para qualquer parte.

A festa dura só três dias – nada mau – 

e termina já de madrugada, sete da manhã,

com mangas, amoras, rúcula, laranjas e vinho tinto.

São anjos. Agora, no fim, para serem homens, 

basta-lhes apenas outra vez a arte de no céu saber cair.


Poema de Nelson Bandeira, sobre desenho de Isabel Amaral, 13 de Janeiro de 2021.


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